Estive trabalhando ao ar livre durante a tarde, sentado em um banco localizado em meio aos diversos espaços da universidade. Ao encerrar o dia de trabalho, guardei o notebook na minha costumeira mochila lateral, cinza e austera. Os dois últimos adjetivos combinam com o horizonte de São Paulo que tenho observado nos últimos dias; e incluindo na equação o clima ameno e a luz de fim de dia, a atmosfera era dramática e lúgrube.
Outros elementos compunham a cena , inúmeros detalhes que corroboravam minhas impressões. Talvez seja por ainda não me haver habituado, ou pelo imaginário que carrego comigo: a cidade é cinza, uma selva de pedra. Ainda assim, sinto que me integro bem. Minha inexpressividade também me torna austero; minhas horas de silêncio passam despercebidas em meio a tantos sons; às vezes me dizem cinza e ameno.
Me perco, brevemente, em devaneios egóicos. No entanto, estes logo cedem espaço à imagem ordinária de uma árvore que se impõe à minha frente. É uma espécie comum, com muitos exemplares espalhados por todo o campus. Deve medir, do solo até a mais alta de suas folhas, cerca de 12 metros. A altura é certamente uma das características mais fáceis de notar, embora não sustente a atenção por muito tempo.
Meus olhos então se voltam para os galhos, que são distribuídos de forma abundante e esparsa. As folhas agrupam-se em pequenos cachos, e não noto flores ou frutos que talvez existam em outras épocas. Chego à bifurcação tripla que compõe o tronco, e não posso deixar de comentar como me agrada o número três, por isso, crio afeição imediata. Sou então capturado pelas trepadeiras, musgos e outras plantas que se estabelecem por toda a superfície da árvore; são um bosque à parte.
Às vezes, alguns pássaros pousam ali, exploram sem muita diligência e logo se vão, espantados pelo estridente ruído dos aviões que pousam e decolam a poucos quilômetros dali. Alguns raios de sol persistem no fim da tarde, atravessando a atmosfera e outros obstáculos, aquecendo levemente a lateral oeste do meu rosto. Isso gera uma sensação sensação alterna entre inconsciência e consciência, interrompendo, por momentos, pensamentos, observações e devaneios.
É um momento banal e monótono. Certamente, outros pássaros já pousaram ali, e outros estudantes já notaram a árvore. Penso, sem intenção declarada, nas tarefas pendentes, no Natal que se aproxima, nos e-mails que ainda não recebi e nas mensagens novas que podem estar no meu chat do Instagram.
Minha atenção é desviada, mais uma vez, e se fixa em um novo objeto. Um dos meus professores, que caminhava pelos arredores, para e me aborda. Diz ue me havia notado contemplando a árvore e comenta que também a observava às vezes. Pergunta, então, qual seria o nome dela, justificando seu interesse pela botânica como algo que nasceu durante um curso de agronomia feito na adolescência. Respondi instantaneamente que não sabia, pois era do cerrado e que pouco conhecia da vegetação local. Trocamos mais algumas palavras; ao me despedir, prometi a ele que descobriria o nome da árvore e o contaria na próxima aula.
Depois disso, fotografei a árvore, reunindo dados para a investigação. Comecei pelo Google, procurando por guias da vegetação da Mata Atlântica ou do próprio campus. Encontrei um antigo projeto que havia mapeado alguns dos bosques, mas minha árvore não estava lá. Tampouco aparecia nos guias que consultei. Sem sucesso, deixei-me ocupar por outras coisas e segui com meus dias. No entanto, ao passar pelo pátio onde a árvore estava, não podia evitar uma sensação de falta. Precisava saber mais, precisava de maior especificidade, precisava de um nome. Retomei as buscas: enviei a foto a amigos, procurei por mais guias nas bibliotecas próximas. Não houve progresso.
Permaneci com o vazio de não ter um nome para aquela figura que agora sempre atraía meus olhos e surgia espontaneamente na memória. Repeti todas as tentativas de busca, e repeti a frustração. Pensei em contatar botânicos; abri minha caixa de e-mails para dar início à ideia. No topo, uma mensagem de divulgação do jornal da universidade me deu uma nova rota. Decidi extender minha busca a ele.
Com pouco esforço, encontrei. O nome era Tipuana, uma espécie originária da Bolívia e do norte da Argentina. Apesar de não ser nativa, a Tipuana tipu é comum na região por seu uso frequente em projetos de paisagismo. Floresce no verão e seus frutos se assemelham a pequenas esferas com uma única asa, que facilita a dispersão pelo vento. Aprendi outras tantas características.
Contei ao professor assim que pude e escrevi o nome em minhas notas para não esquecê-lo. Voltei a passar pela Tipuana. Que alívio foi ter um nome para ela. Quão injusto era pensar nela apenas como árvore, quando ela, como tantas outras do pátio, era tão distinta. Agora era capaz, de forma declarada, de nomear essa distinção.