Quando criei este blog, pretendia trabalhar em duas frentes distintas, alinhadas a aspirações que mantenho há alguns anos. A primeira baseava-se no desejo de adotar uma presença mais pública e transparente, publicando relatos e textos pessoais, mantendo-os abertos e compartilhando-os com amigos e uma comunidade online. A segunda tinha fundamento no anseio de fortalecer meu entendimento de leituras e estudos por meio da escrita e publicação de textos técnicos ou artigos de opinião, auxiliando meu desenvolvimento acadêmico, profissional e intelectual. Passado certo tempo, encontrei percalços; é notável que falhei em cumprir com minhas intenções. Não foi a primeira vez que fracassei ao tentar escrever de forma contínua e pública.
Na infância, costumava escrever contos e histórias, usualmente acompanhados de ilustrações e colagens. Minha mãe era minha única leitora, corrigindo-me ocasionalmente e elogiando-me em igual cadência. Raramente fui afligido pelos erros de grafia ou pela imprecisão com as palavras — não me eram preocupações. Me divertia experimentando termos e temas recém aprendidos; eles chegavam de toda parte: dos adultos, dos professores, dos livros, da televisão e das revistas que ficavam em nossa dispensa. Parei de escrever quando julguei que a exposição já me era um problema e que os escritos, mesmo que fictícios, carregavam muito do que desejava manter íntimo.
Quando adolescente, propus-me, na companhia de uma amiga, a criar e manter um blog literário. Publicaríamos semanalmente e de forma alternada, dispondo de duas semanas para cada um de nós realizar o trabalho. Não dominávamos a literatura, tampouco éramos mestres da escrita, e por vezes estávamos aquém dos títulos que líamos. Por mais que hoje esses fatores me pareçam uma receita para o fracasso, essa não era a impressão que tinha à época. Estava confortável em escrever apesar da falta de expertise. O nêmesis do projeto foi outro: a frequência.
Embora ler e comentar um livro em duas semanas não seja tarefa homérica, eventualmente esse prazo seria frustrado. Um leitor, mesmo que inexperiente, é familiar com as flutuações no hábito da leitura e compreenderia que nos perdemos em meio a elas. Desistimos e concordamos em seguir como um clube do livro anônimo, retendo nossas impressões ao espaço da consciência e dos comentários trocados em conversas corriqueiras.
Continuei a escrever, apenas para mim e para meus professores. Experimentei muitos gêneros textuais e estilos sem nunca me aproximar da genialidade ou do talento. Escrevi redações, crônicas e resenhas que guardei em pastas perdidas no meu quarto ou desaparecidas entre os centenas de arquivos do computador. Rascunhei tirinhas que agradaram aos meus amigos, que certamente me elogiavam por afeto. Enviei algumas cartas, nas quais pude comunicar-me de forma mais eficiente do que faria oralmente. Mantive um diário, onde sentimentos e dias foram dissecados e remontados em monólogos racionalizados. Outras vezes, não escrevi nada por longos períodos. Eram textos meus, de minha autoria; todavia o temor pelos erros ortográficos, os desvios semânticos, os períodos simples, a pontuação deficitária e outros tropeços os mantinham em caráter privado. Outras vezes não escrevi nada por longos períodos.
Certa vez, já na universidade, tomado pelo caos de fim de semestre e pelas demandas acadêmicas, recorri a ferramentas de IA generativa para estender e corrigir alguns de meus trabalhos. Agora que estamos familiarizados com essas ferramentas, é natural afirmar que, conhecendo o estilo de escrita de alguém, é fácil reconhecer quando a autoria foi compartilhada — da mesma forma que se notaria o uso de um ghostwriter. Meu professor notou. Convidou-me à sua sala e me disse que a ciência se constrói sobre a singularidade dos trabalhos autorais e que me beneficiaria mais de escrever com minha própria voz. Ganhei uma nova chance e uma lição que espero manter viva.
Voltamos então a este blog, que não acompanhou minhas aspirações porque, apesar do anseio, temi a exposição dos meus escritos e seus incontáveis erros, evidências do meu déficit de habilidade. Também frustrei a frequência de publicação que tinha em mente: em mais de um ano, publiquei menos de uma dezena de textos. No entanto, fui rígido quanto à autoria, e mesmo sabendo que uma ferramenta de IA facilmente produziria textos na frequência que eu desejasse e com maior respeito à norma culta, mantive a minha voz nos poucos escritos que tive coragem de publicar. Não espero que este texto me transforme em escritor diligente, nem que o receio da exposição desapareça. Mas acredito que, com empenho, posso avançar e superar parte desses dilemas de longa data.